terça-feira, 27 de novembro de 2012

Jantares inteligentes





Você já foi a um jantar inteligente? Jantares inteligentes são frequentados por psicanalistas, artistas plásticos, músicos, atores, jornalistas, publicitários (com a condição de falar mal da publicidade), médicos (esses porque, como é sempre chique ser médico, não se dispensa médicos nunca), produtores, "videomakers", antropólogos, sociólogos, historiadores, filósofos.
Administrador de empresa não pega bem (a menos que tenha um negócio sustentável). Engenheiros, coitados, só vão se forem casados com psicanalistas que traduzem pra eles esse mundo de gente inteligente. Advogados podem ir porque é sempre necessário um cínico inteligente em qualquer lugar. Pedagogas, só se casadas com esses advogados e por isso talvez consigam bancar amizades chiques assim.
Ricos são sempre bem-vindos apesar de gente inteligente fingir que não gosta de dinheiro. Pobre só se for na cozinha, mas são super bem tratados. Claro, tem que ter um amigo gay feliz.
Essa gente é descoladíssima. Seus filhos estudam em escolas de esquerda, claro, do tipo que discute o modelo cubano de economia a R$ 2 mil por mês.
Quando viajam ficam em lugares que reúne natureza "pura", tradição (apenas como "tempero do ambiente") e pouca gente (apesar de jurarem ser a favor da democracia para todos, só gostam de passar férias onde o "povo" não vai).
Detalhe: é essencial achar todo mundo "ridículo" porque isso faz você se sentir mais inteligente, claro.
Quanto à religião, católica nem pensar. Evangélicos, um horror. Espírita? Coisa de classe média baixa. Budista, cai muito bem. Judaica? Uma mãe judia deixa qualquer um chique de matar de inveja. Judaísmo não é religião, é grife.
Mas o que me encanta mesmo são as "atitudes" que se deve ter para se frequentar jantares inteligentes assim. Claro, não se aceita qualquer um num jantar no qual papo cabeça é o antepasto.
Quer saber a lista de preconceitos que pessoas inteligentes têm? Qualquer um desses "gestos" abaixo você pode ter, que pega bem com comida vietnamita ou peruana.

1) A Igreja Católica é um horror e o papa Bento 16 é atrasadíssimo. Claro que não vale ter lido de fato nada do que ele escreveu;
2) Matar Osama bin Laden sem julgamento foi um ato de violência porque terroristas são pessoas boazinhas que querem negociar a paz em meio a criancinhas;
3) Ter ciúmes é coisa de gente mal resolvida;
4) Se algum dia um gay lhe cantar e você se sentir mal com isso, você precisa rever seus conceitos porque gente inteligente nunca tem mal-estar com coisas assim;
5) Se seu filho for mal na escola, minta. Se alguém descobrir, ponha a culpa na professora, que é mal preparada pra lidar com crianças como seus filhos, que se preocupam com as baleias já aos 11 anos e discutem a África no Twitter;
6) Caso leve seus filhos à Disney, não conte a ninguém, pelo amor de Deus!;
7) Acima de tudo, abomine os Estados Unidos, ache Obama ótimo e vá à Nova York porque Nova York "não são os Estados Unidos";
8) Não seja muito simpático com ninguém porque gente simpática é gente carente e gente assim procura "eye contact" em festas. Um conselho: olhe sempre para um ponto no horizonte. Assim, se alguém falar com você, ela é que é carente;
9) Ache uma situação para dizer que você conhece uma cidadezinha no sul da Itália e lá ficou hospedado na casa de uma amiga brasileira casada com um italiano que defende o direito dos imigrantes africanos e odeia Silvio Berlusconi;
10) O ideal seria se você tivesse passaporte italiano também;
11) Se alguém falar pra você que não dá para pagar direitos sociais e médicos para imigrantes ilegais na Europa, considere essa pessoa um "reacionário de direita", mesmo que você não aceite sustentar alguém que não seja você mesmo e sua família (no caso da família nem sempre, claro);
12) No conflito israelo-palestino, não tenha dúvida, seja contra Israel, mesmo que morra de medo de ir lá e não tenha lido uma linha sequer sobre a história do conflito;
13) Se você se sentir mal com a legalização do aborto, minta;
14) Deixe transparecer que só os outros transam pouco;
15) Seja ateu, mas blasé.
Folha de São Paulo – 06.06.2011


sábado, 11 de agosto de 2012

O Admirável Novo Pai


Imitar ou criticar? Por muito tempo a relação com um pai se restringia a essas duas possibilidades. O pai, até bem recentemente, era tido como uma das principais referências em uma sociedade vertical, marcada por padrões estáveis orientadores. Tínhamos o pai na família, o chefe na empresa, o presidente no país. Essas figuras marcavam o caminho que era seguido ou contestado. Se uma pessoa tinha um pai muito forte, importante, conhecido, havia quem pensasse o quão duro seria para o filho que podia se sentir pequeno demais, frente a uma barreira muito alta a ser suplantada. Por outro lado, se ocorresse o contrário, se o pai fosse do tipo anônimo e genérico, aí o filho poderia sofrer de culpa, uma vez que bastaria dar um passo para ir além do pai. O primeiro caso era dado como explicação a filhos inibidos, o segundo, a filhos exibidos, analisando superficialmente.


E hoje? A pós-modernidade ao deslocar os padrões verticais da sociedade, ao horizontalizar o laço social, criando a conhecida sociedade em rede, exige uma nova figura de pai, distinta dessa que nos habituamos a conhecer, descrita acima. O pai passa da posição de representar um ideal, um padrão, para a de garantidor da flexibilidade da referência. Um filho tem que encontrar em um pai alguém que lhe garanta a legitimidade da invenção de sua forma de viver. Se uma mãe autoriza a invenção, o pai a legitima. São os dois movimentos necessários para viver na época atual da globalização: invenção e responsabilidade. Inventar uma forma singular de ocupar o seu lugar na vida, uma vez que nada está dado a priori, e ter a coragem de expor essa singularidade, inscrevê-la no mundo se responsabilizando por ela. É o movimento de qualquer artista: Chico escuta uma banda que é só dele e consegue nos convencer da forma que ele a escuta. Jorge Amado faz o mesmo com a Bahia. Impossível ver a Bahia sem os óculos do escritor que transforma cada gingado de uma morena em Gabriela. Não nos exijamos o talento dos artistas, mas sim a coragem desse duplo movimento: inventar e responsabilizar.

Uma mãe autoriza a invenção, desde nossos primeiros balbucios, um pai legitima a sua existência, ou seja, o por fora de si. É o que está na raiz da palavra existir, composta de “ex”, fora, com “sito”, local: ex-sistir quer dizer “colocar fora”. Um detalhe para ser aprofundado em outro artigo: mãe e pai são funções por vezes coincidentes com as pessoas biológicas, mas não necessariamente, para a sorte de todos nós, se não os órfãos estariam fortemente prejudicados. A partir desse admirável novo pai, admirável por sua novidade, mais que pela sua grandeza, é pouco esclarecedor continuarmos a nos fiar nas análises maniqueístas de pai forte, pai fraco; filho identificado, filho rebelde. Pai é quem tem um sentimento sagrado por um filho. Sagrado vem de sacrifício. Pai é quem tem um amor radical – sem explicação – e que pode morrer por um filho. É esse ponto de amor radical que é detectado pelo filho e sobre o qual ele se apoia na invenção singular de sua vida. Um filho sabe que ali ele conta, que dali ele pode contar sua vida, dar-se à existência. Não nos surpreendamos que pais e filhos possam trabalhar melhor juntos agora que no passado. Fora do eixo imaginário da dominação, pais e filhos convivem bem como nunca nesse amor radical que possibilita expressões distintas, diversas e divertidas, com a marca de uma mesma família. Não faltam exemplos: Coppolas, Veríssimos, Holandas, Douglas, Cravos e, seguramente, muitos mais. Jorge Forbes.


domingo, 20 de maio de 2012


Euforia Depressiva

Jorge Forbes


As grandes revistas semanais de circulação nacional dedicam cada vez mais páginas à seção de comportamento. Antes, o xodó era a economia, agora é o comportamento. E tome remédio para tudo. A se fiar na propaganda, moças já podem fabricar o namorado ideal : potente, magro e bem humorado. Basta preparar um coquetel de Viagra, Xenical e Prozac. Repetem-se matérias sobre depressão, sobre o mal do fim do século, sobre a doença do próximo milênio, enfim, há uma euforia depressiva. Constata-se o seu aparecimento em todo lugar mas não se pergunta o porquê. Por que temos mais depressão ? Não, não é só porque agora podemos fazer melhores diagnósticos. Seria fácil demais nos restringirmos a esta explicação. Entendo ser mais convincente pensar que esses tempos são propícios à covardia moral. Para que arriscar tomar para si a incerteza de uma aposta quando, como dizia, para tudo parece ter remédio ? Depressão, nesse contexto, é o novo nome do velho medo, da insegurança, da dúvida... da dor de cotovelo, eternas doenças do homem.

Esta crítica não desmerece a efetiva contribuição dos novos medicamentos, quando bem administrados. O problema é a ideologia ignorante e parasitária que os acompanha. A posição dos psicanalistas está dividida quanto à colaboração terapêutica farmacológica. Uns pensam que Freud foi o primeiro biólogo da mente e que as neurociências vieram confirmar as hipóteses do fundador. Outros defendem que nenhuma objetivação do ser humano será capaz de apagar a responsabilidade subjetiva de cada um frente a seu desejo. A opção parece evidente e no entanto ainda há muita confusão neste pedaço. Na base está o engano de se pensar a representação do cérebro como sendo o próprio cérebro. Para a psicanálise não há como acabar com o mal entendido, não existe o homem natural. Como diria Drummond, tentar imitar o mundo, chamar-se Raimundo, pode ser uma boa rima mas não é uma solução.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Inconsciente e responsabilidade: Psicanálise do século XXI


por Jorge Forbes

“[...] O inconsciente do qual vamos tratar é aquele que leva o ser falante a responsabilizar-se pela invenção de seu estilo singular de usufruir de seu corpo e de sua vida. No discurso da psicanálise difundida nos meios de comunicação, responsabilidade e inconsciente não são termos que aparecem conjugados, chegando a ser considerados excludentes. Assim, a responsabilidade estaria associada à consciência plena e onde houvesse inconsciência não poderia haver responsabilidade. Diante de um ato que cometeu – voluntária ou involuntariamente – e sobre o qual estranha a própria participação, é comum a pessoa dizer: ‘Só se foi o meu inconsciente’. No século xxi, o psicanalista que acredita no inconsciente irresponsável não trata o sintoma e não cura. É urgente considerar a responsabilidade pelo que é inconsciente, pois já não podemos mais contar com as ficções – tais como a do mito paterno – que, até o século passado, nos permitiam escapar, dizendo: ‘Foi por causa de papai’. Também a clínica psicanalítica, por essas mesmas razões, atravessa um novo momento. […]” - Trecho da Introdução

Sobre o autor:
Jorge Forbes é psicanalista e médico psiquiatra, em São Paulo. Mestre e Doutor em Psicanálise pela Universidade de Paris VIII e Universidade Federal do Rio de Janeiro, respectivamente. É também Doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina (Neurologia), da Universidade de São Paulo (USP). É um dos principais introdutores do pensamento de Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminários em Paris, de 1976 a 1981.


sábado, 21 de janeiro de 2012

Protocolos do afeto

por Luiz Felipe Pondé

Famílias podem ser máquinas de moer gente. Uma das marcas de nossa fragilidade é depender monstruosamente de laços tão determinantes e ao mesmo tempo tão acidentais. O acaso de um orgasmo nos une. Em meio a jantares e almoços intermináveis, o horror escorre invisível por entre os corpos à mesa. Talvez muitos pais não amem seus filhos e vice-versa. Quem sabe, parte do trabalho da civilização seja esconder esses demônios da dúvida sob o manto de protocolos cotidianos de afeto. Até o darwinismo, uma teoria ácida para muitos, estaria disposta a abençoar esses protocolos com a sacralidade da necessidade da seleção natural. Mesmo ateus, que costumeiramente se acham mais inteligentes e corajosos, tombam diante de tamanho gosto de enxofre. Pergunto-me se grande parte do sofrimento psíquico e moral de muita gente não advém justamente da demanda desses protocolos de afeto. Da obrigação de amar aqueles que vivem com você quando a experiência desse mesmo convívio nos remete a desconfiança, indiferença, abusos, mentiras e mesmo ódio. A horrorosa verdade seria que existem pessoas que não merecem amor? Pelo menos não de você. Mas você é obrigado a amar irmãos, filhos, pais, avós, e similares. E, se não os amar, você adoece. Um sentimento vago de desencontro consigo pode ocorrer se um dia você se perguntar, afinal, por que deve amar alguém que por acaso calhou de ter o mesmo sangue que você? Alguém que é fruto de um ato sexual entre o mesmo homem e a mesma mulher que o geraram em outro ato sexual.

Quem sabe a força do "mesmo sangue" seja uma dessas coisas que a experiência moderna esmagou, assim como a crença, para muita gente já vazia, no sobrenatural, na providência divina ou no amor romântico. Sim, o niilismo teria aí uma de suas últimas fronteiras? É comum remeter esse vazio da perda dos vínculos de afeto ao mundo contemporâneo da mercadoria. Apesar de ser verdade que os laços humanos se desfazem sob o peso do mundo do capital, parece-me uma ingenuidade supor que o mal da irrealidade dos afetos seja "culpa" do capital. É fato que a modernidade destrói tudo em nome da liberdade do dinheiro, mas é fato também que não criou a espécie em sua miséria essencial. A melancolia tem sido a verdade do mundo muito antes da invenção do dólar. Por que devo amar alguém apenas porque essa pessoa me carregou em sua barriga por nove meses? Ou porque penetrou, num momento de prazer sexual, a mulher que iria me carregar em sua barriga por nove meses? Por alguma razão, questões como essas parecem mais sagradas do que Deus, o bem e o mal, ou a vida após a morte. Como se elas devessem ser objetos de maior fé do que as religiosas. Ou porque elas garantem a convivência miúda e tão necessária para a estabilização da sociedade. Só monstros colocariam em dúvida tal sacralidade.  Mas quantas horas nós passamos vasculhando nossas almas em busca de afetos que, muitas vezes, podem ser o contrário do que deveríamos sentir?

Ou não achamos nada além da indiferença? Às vezes, a pergunta pelo amor pode ser apenas um protocolo contra o desespero.Estamos preparados para pôr em dúvida a normalidade sexual no caso de mulheres que gostam de fazer sexo com cachorros, mas não estamos preparados para suspeitar que grande parte de nosso amor familiar não passe de protocolo social. Rapidamente, suspeitaríamos que estamos diante de pessoas doentes e sem vínculos afetivos. Por que, afinal, mulheres homossexuais correm em busca de "misturar" óvulos de uma com a barriga da outra, como se, assim, mimetizassem o coito reprodutivo heterossexual? Será que é amor por uma criança que ainda nem existe ou apenas um desejo secreto de ser "normal"? Ter filhos é prova desse amor ou apenas um impulso cego que se despedaça a medida que os anos passam?Um dos nossos maiores inimigos somos nós mesmos, mais jovens, quando tomamos decisões que somos obrigados a manter no futuro. Com o tempo, algo que nos parecia óbvio se dissolve na violência banal de um dia após o outro. Como que diante de um espelho de bruxa

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"...sustentar no mundo"

Freud

Jorge Forbes

-A psicanálise é uma eterna reflexão – a cada momento você tem que saber como contornar o impossível. 

 -O melhor instrumento para mobilizar o preconceito de uma pessoa é a análise.

- Entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e se instalar na ética do desejo

-O que faz durar a possibilidade de uma pessoa pensar ser feliz? Provavelmente a sua capacidade de manter viva a responsabilidade por sua singularidade e a invenção de soluções que consiga sustentar no mundo.


 -A felicidade só se alcança no acaso, na surpresa do encontro.